As Origens do Club Sportivo Nun´Álvares

Nascimento

É em 1915 que nasce, no Carvalhido, o Club Sportivo Nun´Álvares.

Sportivo, como aportuguesamento de sportiv, que dará mais tarde origem à palavra Desportivo.

Quanto à escolha para patrono, da figura patriótica de Nun`Álvares Pereira, o Condestável (chefe militar) das tropas portuguesa em Aljubarrota, deve ser vista no contexto de um profundo nacionalismo que o símbolo do Clube indicia, com a Cruz de Cristo e o escudo de armas de Portugal, em fundo amarelo.

Nesse mesmo ano de 1915, procedia-se ao envio de tropas portuguesas para África, afim de salvar as colónias das investidas alemãs nesses territórios. “As tropas portuguesas mantêm firme as suas posições face às intromissões do “Huno” germânico. Bravos lusos!”, publicava “O Comércio o Porto”, em abril de 1915.

Havia também um debate aceso no Parlamento, sobre o envio ou não de tropas para França, para combater ao lado dos Aliados na “Grande Guerra”, debate esse, que se estendia à Imprensa e à opinião pública da jovem República Portuguesa.

23 de agosto de 1915 Tropas portuguesas no Sul de Angola.
23 de agosto de 1915 Tropas portuguesas no Sul de Angola.

Carvalhido

Até finais do século XIX, o Carvalhido era um “arrabalde abundante em carvalheiras”, onde o “Exército Libertador” de D. Pedro montara acampamento de 8 para 9 de julho de 1832, antes de tomar a cidade, e onde existia desde já, o cruzeiro do Senhor do Padrão implantado no caminho de Santiago.

Com a industrialização crescente, na saída da cidade, em direção às terras da Maia e da Póvoa, o Carvalhido transformou-se, numa zona operária, em grande crescimento, repleta de fábricas e de ilhas, mas que ainda assim, se conjugava com muita ruralidade, havendo inúmeras quintas, nas zonas da Prelada, Paranhos e Monte dos Burgos.

O Carvalhido foi também o local de implantação dos primeiros estúdios de produção cinematográfica, “a primeira fábrica de films portuguezes”, a Invicta Film Limitada, no local onde hoje se situa o início da Avenida do Conselho da Europa, ao fundo da Avenida de França, precisamente em 1915, ano da fundação do CSNA.

Carvalhido, 1930
Carvalhido, 1930
Estúdios da Invicta Films, 1915
Estúdios da Invicta Films, 1915

Natação

No início do século surge uma nova postura face ao exercício físico, sobretudo trazida pelos ingleses residentes em Portugal.

A propósito dos novos sportmen era citado na imprensa da época: “É sem dúvida o sport, em todas as manifestações, uma das afirmações mais eloquentes de um povo civilizado estabelecendo um perfeito equilíbrio entre a cultura do espírito e o desenvolvimento físico do indivíduo”, e ainda” queremos uma geração de homens deliberativos e decididos, que só a prática dos desportos cria e educa; não queremos uma geração de raquíticos e de afeminados que a vida dos salões produz”.

Crescia a ideia de que o exercício físico promovia a saúde, numa época em que havia o espectro permanente da tuberculose.

A natação era cada vez mais vista como prática desportiva desejável, com provas de mar e de rio, e é nesta nova mentalidade que surge a piscina do Nun`Álvares, no Carvalhido, na Rua do Monte dos Burgos, onde atualmente se situa a Domus Social da CMP, a primeira piscina da cidade do Porto.

É de destacar o espírito destemido dos nadadores do CSNA É bem conhecida a história de António Branco, industrial de madeiras, na altura na casa dos 20 anos, que no mesmo dia participou numa prova de mar, na Póvoa de Varzim, em seguida veio a correr até ao Porto, e ao fim da tarde desse mesmo dia, participou numa prova no rio Douro.

Há que realçar ainda, o nascimento em Luanda, em 1924, de uma filial, o Grupo Desportivo Nun’Álvares, de Luanda, dedicado à prática de foot ball, bem como de natação, remo e vela, assim designado até 1979, rebatizado então como Clube Náutico da ilha de Luanda, mas mantendo sempre o preto e amarelo como cores do clube.

A piscina do Carvalhido iria desaparecer, voltando o CSNA a ter a sua piscina, apenas a partir de 1961, e que duraria cerca de uma década, na Avenida da Boavista, a qual funcionava também como estrutura de apoio de apoio às fábricas de Sedas Aviz, em caso de incêndio.

Atletas do CSNA, 1923?
Atletas do CSNA, 1923?
A piscina do Nun`Álvares, em 1923
A piscina do Nun`Álvares, em 1923
Provas no Rio Douro, década de 1920
Provas no Rio Douro, década de 1920
Provas no Rio Douro, década de 1920
Provas no Rio Douro, década de 1920
Equipa de polo aquático do CSNA, 1926
Equipa de polo aquático do CSNA, 1926
António Branco, nadador do CSNA
António Branco, nadador do CSNA
Inauguração da “nova piscina”, 1961
Inauguração da “nova piscina”, 1961

Atletismo

Também o atletismo esteve em grande evidência nas primeiras décadas do CSNA.

Na época eram muito populares as “corridas pedestres”, nas quais a assistência se deslumbrava com o esforço dos corredores.

Vários atletas do CSNA se apresentavam em destaque nas provas nacionais de velocidade, lançamento de peso e salto em comprimento. Atletas como José Coutinho, Manuel Osório, Pedro d´Almeida, Alberto Ferreira e Karel Pott, notabilizaram-se não só pelo nível atingido, mas também pela promoção que deram à modalidade na cidade do Porto.  Este último, seria atleta Olímpico nos Jogos de Paris de 1924, e mais tarde, viria a ser o primeiro advogado moçambicano não branco. Seria também um defensor da autodeterminação de Moçambique, o que lhe valeria a atenção constante da PIDE.

“Corrida pedestre” ao longo da Avenida da Boavista, data?
“Corrida pedestre” ao longo da Avenida da Boavista, data?
Final dos 100 metros, 1923, Provas nacionais organizadas pelo Sport Lisboa e Benfica
Final dos 100 metros, 1923, Provas nacionais organizadas pelo Sport Lisboa e Benfica

FOOT BALL e HÓQUEI EM CAMPO

Logo na sua génese, o Nun`Alvares assumia-se como um clube “sportivo” aberto a todos os desportos, desde o atletismo, ao foot ball, ao hóquei em campo e à natação.

Já no football, contava o Club Sportivo Nun´Álvares desde o seu início, com a forte rivalidade local do Carvalhido Football Club, e na região, do FC Porto, Boavista FC, Académico FC, entre outros, o que fez com que o crescimento da modalidade no CSNA, fosse limitada. Com habitual permanência na Liga das designadas “segundas e terceiras categorias”, sagrou-se campeão das “terceiras categorias”, em 1917-1918.

Jogava o Sportivo Nun´Álvares em campos emprestados, como era o caso do majestoso campo do Ameal, propriedade do Sport Progresso, inaugurado em 1923.

 

Clube Sede Campo
Académico Futebol Clube Rua de Santa Catarina Campo da Cruz
Boavista Futebol Clube Rua do Almada Campo do Bessa
Carvalhido Futebol Clube s/registo Campo do Carvalhido
Chantecler Futebol Clube Campo de Liége, Foz
Clube da Mocidade Desportiva Campo da Arca de Água s/registo
Clube Sportivo Nun´Álvares Galerias de Paris Campo na Rua Entreparedes
Continental Futebol Clube Rua da Alegria Monte das Antas
Estrela Futebol Clube s/registo Campo Rua Coutinho de Azevedo
Freixo Sport Clube s/registo Monte Aventino
Futebol Clube do Porto Rua Antero de Quental Campo da Constituição
Lusitano Sport Clube Rua do Freixo Monte Aventino
Clube Olímpico Ideal s/registo Campo do Bonfim
Oporto Cricket Club Rua do Campo Alegre Parque de jogos do Campo Alegre
Sport Clube Comércio Rua da Alegria s/registo
Sport Porto e Salgueiros Rua da Porta do Sol Campo da Constituição
Sport Progresso Rua Luz Soriano Campo do Ameal

 

E assim nasceu e cresceu o Sportivo Nun´Álvares, nas duas primeiras décadas.

Tempos futuros viriam, com sucessos, realizações, desilusões, mas sempre um clube orientado para, como referido nos estatutos, “a promoção cultural, desportiva e recreativa dos seus associados e de toda a população local, dentro do mais puro amadorismo”.

Ontem como hoje.

“Equipe” de Hóquei em Campo, 1927
“Equipe” de Hóquei em Campo, 1927
Equipe campeã das “terceiras categorias”, em 1917
Equipe campeã das “terceiras categorias”, em 1917
Vista do campo do Ameal, década de 1920
Vista do campo do Ameal, década de 1920

(autoria – Direção do CSNA, maio.2020)

Bibliografia:  https://www.facebook.com/pg/PortoDesaparecido/photos/?tab=album&album_id=637558159632723;

http://etcetaljornal.pt/j/2018/11/porto-o-lugar-do-carvalhido-e-a-sua-envolvencia/;

– O Comércio do Porto, ano de 1915;

– KUMAR, RAHUL -Os piratas da corrida: fragmentos para a história da popularização do atletismo em Portugal;

– Ilustração Portuguesa, 1 de setembro de 1915;

– Pereira, Ricardo Costa- O futebol portuense na Primeira República Portuguesa (1910-1926), FLUP, 2015;